Ser Clarice
Meu Deus, como eu tenho dificuldade em escrever em português. Mas estou me mergulhando em Clarice Lispector pela primeira vez, então me sinto na obrigação. Minha escrita em português não é refinada. Logo eu, que sempre almejo o refinamento. Mas a prática nos aproxima da perfeição, eu suponho.
Estou na Bahia há dois dias. Aqui a vida é mais leve e mais salgada. Os dias são longos e ensolarados. Temperados pelo sal do mar. Não tem muito o que fazer, e acho que é esse o objetivo. Hoje terminei de ler A Hora da Estrela e já comecei A Paixão Segundo G.H.. Ando meio doída por alguém que mal vale meu pensamento. Mas acho também que ando doída por ele só porque não tenho motivo melhor para me doer.
O ser humano é assim: está sempre à caça de sofrimento, mesmo que a gente não perceba. Talvez não os seres humanos, mas nós, seres humanos, que somos também escritores. Pensantes. Sencientes. Nós, seres humanos, que temos uma percepção mais aguçada das emoções que nos rodeiam. Estamos sempre sofrendo por algo, sentindo por alguém — sentimento nobre, mas também profundamente desgastante.
Tenho plena consciência de que Clarice também era assim. Me sinto acanhada de me inserir na mesma categoria que Clarice Lispector, mas devo dizer que acredito ser da mesma fibra que a grande escritora. Refiro-me, nesse caso, à ideia de compartilhar uma essência semelhante. Ao ler suas palavras, entendo sua confusão. Sinto seus questionamentos, sua loucura. Me identifico com o seu indagar.
A experiência da escrita de Clarice me dá mais confiança na minha própria escrita. Talvez eu não seja Didion, mas posso ser Clarice. E que delícia poder ser Clarice! Excêntrica. Inconvencional. Imprevisível.
Que coragem a minha, sonhar em poder ser Clarice. E, mesmo assim, o faço, à moda de Clarice. O faço porque sua escrita me mostra que não é necessário ser compreendida o tempo inteiro. Ora, não é nem necessário ser compreendida, ponto! Sua escrita é como é. Existe como existe, do seu próprio jeito. Incabível dentro de qualquer rótulo literário e, por causa disso, irrepetível.
Então, deixo aqui, no meu português torto e grosseiro, minha saudação à grandiosidade de Clarice Lispector e sua voz única, para toda a internet ver. Já me arrependendo de declarar ao mundo que me sinto remotamente semelhante à grande Autora, mas, como escreve a própria no livro que estou lendo: "É preciso também não ter medo do ridículo."(18)




amei
Clarice e Bahia são duas coisas que combinam bem ;)